
Está em exibição até dia 3 de Junho, no Cinema City Alvalade, o filme “Pára-me de repente o pensamento” de Jorge Pelicano.
É um filme marcante que torna impossível não ficar dias a falar sobre ele! Mostra pessoas reais com doenças reais. É a verdade crua. Talvez seja essa a beleza.
Uma verdade tão crua que nos chegamos a questionar se de facto nada foi encenado. Nas palavras de Pelicano, “Costumo dizer que o documentário é o género cinematográfico que mais se aproxima da verdade, nunca é a verdade.”
Com isto quer dizer que nada foi decorado ou ensaiado, apenas gravaram conversas reais entre os pacientes. Mas tal significa também que nunca atingirá a verdade absoluta, já que a partir do momento em que se encontra uma câmara no local o comportamento de cada pessoa alterar-se-á ligeiramente.
Mas porquê a estranheza inicial a ver o filme? Talvez por nunca ter tido contacto com alguém com este tipo de doença, “Não somos malucos, somos doentes!”.
Estão dentro dos muros do Hospital Psiquiátrico Conde de Ferreira, uns só querem fugir, outros só querem o contrário.
Como é o caso do Torres, que diz que se suicida se algum dia o tirarem dali. Percebe-se que é já uma pessoa consciente da sua doença, mas mesmo assim conseguimos sentir o seu desespero.
Existem também figuras com um espírito completamente diferente, como o Abreu e o Alberto, que são talvez as mais cativantes. O riso incontrolável, tão puro de Alberto, sempre acompanhado com a assertividade e sabedoria de Abreu, fazem deles um duo inseparável.

Depois aparece uma nova presença. Um actor. Alguém de fora, alguém diferente. Alguém que ouve e que não julga. Que vai mergulhando naquele meio, ouvindo, sempre atento.
Depois um objetivo, o que afasta o filme de um simples documentário e que cria uma narrativa. Este actor será Ângelo Lima, o poeta esquizofrénico, internado outrora naquele hospital, tão admirado pelos poetas de Orpheu.
E seguimos a evolução do mesmo, transformando-se aos poucos e poucos. E é na cena na Igreja que atinge quase um êxtase, onde parece já não conseguir distinguir a realidade da ficção. Aí, por uns segundos, é Ângelo Lima.
“Os muros são tão grandes para não deixar os malucos lá de fora entrarem cá para dentro!”, disse um paciente ao realizador, sem a presença das câmaras.

Tivemos a sorte de ter a visita de Jorge Pelicano à FBAUL, na passada quinta-feira. Acho que foi muito importante saber um bocadinho mais sobre o outro lado da câmara, coisa a que poucas vezes temos acesso.
Foi muito positivo descobrir que não houve qualquer intervenção, por parte da equipa de filmagem, em nenhuma das cenas. Seguiram os passos e ouviram as conversas dos pacientes, chegando a passar várias horas a seguir os passeios de Abreu e Alberto.
Fiquei com uma melhor noção do que é fazer um filme desta espécie, o que fez com que ficasse com o bichinho do cinema.
Foi também importante perceber como funciona o cinema em Portugal e conhecer um pouco melhor este meio.
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Em baixo encontra-se o link de uma entrevista ao realizador, onde são dados pormenores sobre este projeto:
http://www.c7nema.net/entrevista/item/42643-entrevista-a-jorge-pelicano-o-grande-vencedor-do-festival-caminhos-do-cinema-portugues.html